Sábado, 31 Dezembro 2011 02:33

A Trindade: Da Teoria à Prática

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A doutrina da Trindade é uma das mais importantes doutrinas do cristianismo ortodoxo. Percebe-se, entretanto, que, pelo menos no contexto brasileiro, essa doutrina é tida em pouca consideração. A razão disso talvez seja o pragmatismo que a religião brasileira tem como base. As pessoas só se interessam por aquilo que entendem que pode ser útil para sua vida. Elas querem coisas práticas e estão enjoadas de teoria. Esse é justamente o motivo pelo qual não gostam de estudar teologia. Teologia sugere algo teórico, e as pessoas dizem que estão mais interessadas em “experiências” com Deus, e na prática demonstram que desejam “soluções” de Deus para seus problemas.

Não é o caso de que os cristãos não acreditem na veracidade da doutrina da Trindade, apenas, de forma geral, as pessoas não sabem para que ela serve. É aquela velha história de que para que algo seja importante, precisa “falar ao coração”. Talvez, para a maioria, pouco importa se Deus é um ou três.

Entretanto, esquecer-se ou descaracterizar a doutrina da Trindade é perder muito do que a Bíblia e especialmente Deus tem a nos dizer no real sentido da palavra. É perder de vista a coisa mais essencial de Deus que podemos saber. Na verdade, é ignorar a própria essência de Deus. Poucas pessoas pensam na Trindade hoje em dia, e quando pensam, não seria absurdo dizer que em muitos casos imaginam três deuses. Esse importante assunto precisa ser melhor estudado.

Num certo sentido, a doutrina da Trindade é de fato a mais misteriosa e também a mais difícil de todas as doutrinas bíblicas, porém, como afirma Lloyd-Jones:

“Ela é, em certo sentido, a mais excelsa e a mais gloriosa de todas as doutrinas, a coisa mais espantosa e estonteante que aprouve a Deus revelar-nos sobre Si mesmo”1

Ou como afirma Bavinck:

“O artigo sobre a santa Trindade é o coração e o núcleo de nossa confissão, a marca registrada de nossa religião, e o prazer e o conforto de todos aqueles que verdadeiramente crêem em Cristo. Essa confissão foi a âncora na guerra de tendências através dos séculos. A confissão da santa Trindade é a pérola preciosa que foi confiada à custódia da Igreja Cristã”2

Deus quis mostrar aos seus filhos esse detalhe tão impressionante de sua essência. Queremos demonstrar que a doutrina da Trindade não é apenas um conceito teórico ou desinteressante, mas um elemento essencial para a espiritualidade.

1 D. M. Lloyd-Jones. Deus o Pai, Deus o Filho, p. 114.
2 Herman Bavinck. Our Reasonable Faith, p. 145.


Aspectos históricos da doutrina da Trindade

No início do cristianismo a Trindade foi motivo de controvérsias. Antes do Concílio de Nicéia (325 d.C.), as principais controvérsias trinitárias foram influenciadas pelo judaísmo em sua ênfase no monoteísmo e na unidade de Deus, também pelo gnosticismo que via todas as coisas como emanações de Deus e considerava a matéria má, e pelo platonismo que cria no Logos como a principal criatura de Deus.

Essas correntes filosóficas causaram muita influência nos cristãos primitivos, originando uma série de disputas, que deram origem a algumas teorias heréticas sobre a Trindade3. As principais foram:

Monarquismo

Essa heresia surgiu da dificuldade em explicar o elemento divino na pessoa de Cristo, e mesmo do Espírito Santo, sem cair no erro do triteísmo.

O Monarquismo Modalista não admitia a existência da Trindade Ontológica (em essência), mas apenas Econômica (funcional), ou seja, Pai, Filho e Espírito Santo são uma única pessoa que se manifestou sucessivamente na história. Deus se manifestou na pessoa do Pai na Criação, na Pessoa do Filho na Encarnação e na Pessoa do Espírito Santo na Regeneração.

Já o Monarquismo Dinâmico negou a divindade essencial de Jesus, afirmando que Deus é essencialmente um, e que Jesus havia recebido o dinamis (poder) de Deus por ocasião de seu batismo, sendo elevado a uma categoria divina. Esse poder o abandonou poucos instantes antes de sua morte.

Arianismo

O Arianismo recebeu esse nome de seu fundador Ário (250-336 a.D.), que foi um Presbítero da igreja de Alexandria. Ário era essencialmente unitarista, e negava qualquer possibilidade de haver uma Trindade.

Segundo Ário, somente Deus era eterno, Jesus era uma criatura intermediária gerada do nada por Deus antes da criação do mundo. Desse modo o Pai nem sempre foi Pai, pois antes de ter criado o Filho, Deus existia sozinho. O Filho não é eterno.

Segundo Ário, a importância do Filho estava no fato de que ele foi o instrumento através do qual Deus criou todas as coisas e nada mais. É impossível não associar o arianismo ao que proclamam hoje as Testemunhas de Jeová.

Os Concílios

A igreja reagiu à maioria das heresias antigas reunindo-se em concílios onde foram formuladas declarações de fé que demonstravam a verdadeira ortodoxia. Os Concílios que mais trataram a respeito da trindade foram Nicéia e Calcedônia.

O Concílio de Nicéia foi convocado pelo Imperador Constantino por causa do Arianismo em 325 d.C. O Arianismo foi rejeitado nesse concílio, e formulada a seguinte declaração de fé:

“Cremos em um só Deus, o Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis; E em um só Senhor, Jesus Cristo, o filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas vieram a ser, coisas nos céus e coisas na terra, o qual, por nós, homens, e por nossa salvação, desceu e Se encarnou, tornando-Se homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus, e virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo. Mas, quanto àqueles que dizem „tempo houve em que ele não existia‟, e „antes de nascer ele não era‟ e que ele veio a existir do nada, ou que afirmam que o Filho de Deus procede de uma hipóstase ou substância diferente, ou é criado, ou está sujeito a alteração ou mudança – a esses a igreja Católica (Universal) anatematiza”.

Essa declaração colocou o Filho em pé de igualdade com o Pai, ou seja, ele é da mesma substância do Pai. Não é um Deus diferente, e muito menos inferior.

No Concílio de Constantinopla, em 381, as diferenças com relação à divindade do Espírito Santo foram resolvidas. A Fé Nicena foi reafirmada nesse Concílio, mas a questão do Espírito Santo foi melhor esclarecida:

“Nós cremos no Espírito Santo, o Senhor, o Doador da Vida, que procede do Pai4, que com o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado...”

Essa declaração afirma claramente que o Espírito Santo não era subordinado ao Filho e nem ao Pai, mas era da mesma substância do Pai e do Filho.

3 Para uma excelente exposição sobre os conflitos trinitários deste período, ver: Louis Berkhof. Historia de Las Doctrinas Cristianas, p. 47-119.
4 No concílio de Toledo (589 a.D.) foi acrescentada a expressão “e do Filho”, sumarizando a doutrina da igreja Ocidental de que o Espírito procede do Pai e do Filho conjuntamente.


Aspectos Bíblicos da doutrina da Trindade

Aqueles que negam a existência da Trindade, em geral acusam os trinitarianos de inventar uma doutrina que não está na Bíblia. Embora o termo “Trindade” realmente não seja encontrado na Escritura, existe toda uma convicção de que essa doutrina é amplamente comprovada pelos textos sagrados. Aliás, de onde tal doutrina poderia surgir senão da Revelação de Deus? Quem poderia formular essa doutrina do nada?

A igreja teve que reconhecer e defender a Trindade exatamente para poder conciliar os elementos bíblicos. Como crer que há somente um Deus como as Escrituras afirmam (Dt 6.4), se as próprias Escrituras dizem que Jesus também é Deus (Jo 20.28)? E do mesmo modo afirma que Jesus e o Pai são pessoas distintas (Mt 3.16-17)?

Evidências do Antigo Testamento

No Antigo Testamento podemos encontrar indícios da existência da Trindade. Ela não está explicitamente exposta no Antigo Testamento, mas à luz da revelação do Novo Testamento podemos ver indícios claros dessa doutrina ainda no Antigo Testamento.

Uma coisa que fica absolutamente clara é a ênfase do Antigo Testamento na unicidade de Deus (Dt 4.35,39; 32.39; 2Sm 22.32; Is 37.20; 43.10). A principal confissão de fé do povo hebreu em Deuteronômio 6.4 diz: “Ouve Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor”. Da mesma forma Isaías 45.18 diz: “Porque assim diz o SENHOR, que criou os céus, o único Deus, que formou a terra, que a fez e a estabeleceu; que não a criou para ser um caos, mas para ser habitada: Eu sou o SENHOR, e não há outro”. Porém, encontramos em muitos outros textos claras indicações de que dentro da divindade há mais de uma pessoa.

O Nome de Deus

O título “Elohim”, traduzido como Deus em Gênesis 1.1, é o nome mais comum aplicado à divindade no Antigo Testamento. Esse nome está no plural. Isso por si só não quer dizer que haja três pessoas na divindade, mas de alguma maneira implica em pluralidade dentro da divindade. Entendemos o texto de Gênesis 1.1-3 à luz do texto de João 1.1-2 como sendo uma referência à obra do Pai, do Filho e do Espírito Santo na Criação.

A comunicação de Deus consigo mesmo

Textos como Gênesis 1.26, 3.22, 11.7 e Isaías 6.8 têm sido bastante difíceis de explicar. Nesses textos é como se Deus falasse consigo mesmo na primeira pessoa do plural: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” (Gn 1.26). Com quem Deus estava falando nesses momentos? Certamente não era com os anjos, pois o homem não foi feito à semelhança dos anjos, nem os anjos estão no mesmo nível de Deus5. E a Bíblia não diz que Deus tome conselho com anjos ou qualquer outra criatura (Is 40.13-14). A resposta mais plausível é que Deus falava consigo mesmo dentro da Trindade.

Esse entendimento só é possível à luz da revelação do Novo Testamento, a qual de uma maneira ainda mais clara demonstra o relacionamento dentro da Trindade, conforme pode ser visto nas palavras do próprio Jesus: “Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.23). O mesmo “nós” dos textos do Antigo Testamento pode ser visto no relacionamento de Jesus com o Pai.

A repetição dos nomes de Deus na Bênção Araônica

Na Bênção Araônica lemos: “O SENHOR te abençoe e te guarde; o SENHOR faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o SENHOR sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6.24-26). Três vezes aparece no texto o título SENHOR. À luz da revelação do Novo Testamento, especialmente da Bênção Apostólica, onde as três pessoas estão claramente distintas (2Co 13.13), conseguimos ver na Bênção Araônica indícios da Trindade6.

O Anjo do SENHOR

Uma boa referência do Antigo Testamento sobre a Trindade encontra-se na pessoa do Anjo do SENHOR. O caso é que algumas vezes esse Anjo, que deve ser distinguido dos demais anjos, se identifica com o próprio Senhor, enquanto que em outras ocasiões ele é distinguido do Senhor, o que nos leva a pensar em pluralidade de personalidade (Ver Gn 16.7-13; 22.15-16; Gn 31.11-13; Ex 3.2-6; Ex 23.23, 32.34 e Nm 20.16). Geralmente associa-se essa figura do Anjo do SENHOR com a Segunda Pessoa da Trindade.

Aparições de Deus

Talvez a prova mais evidente do Antigo Testamento com relação à Trindade encontre-se nas aparições de Deus. A Escritura do Novo Testamento diz que ninguém jamais viu a Deus (Jo 1.18; 5.37; 6.46; 1Jo 4.12). Como explicar, então, todas as supostas aparições de Deus no Antigo Testamento? (Gn 18.1; 28.13; Ex 33.18-23; Dt 34.10). João mesmo explica: “Ninguém jamais viu a Deus, o Deus unigênito que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). João chamou Jesus de Logos (Jo 1.1) que é traduzido como Palavra ou Verbo, e traz a idéia de fala ou comunicação.

Entendemos então, que Jesus foi o revelador da pessoa divina no Antigo Testamento. Jesus disse que Abraão havia visto o seu dia, pois existia antes de Abraão (Jo 8.56-58), referindo-se com certeza à ocasião da destruição de Sodoma e Gomorra, quando Abraão viu o Senhor, conforme relata Gênesis 18.1: “Apareceu o SENHOR a Abraão nos carvalhais de Manre, quando ele estava assentado à entrada da tenda, no maior calor do dia”. Quem Abraão viu naquele dia, foi o próprio Jesus antes de sua encarnação. Depois daquele encontro, os anjos desceram e destruíram as cidades.

Outro texto que ajuda a perceber que Jesus se manifestou no Antigo Testamento é João 12.37-41: “E, embora tivesse feito tantos sinais na sua presença, não creram nele, para se cumprir a palavra do profeta Isaías, que diz: Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: Cegou-lhes os olhos e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados. Isto disse Isaías porque viu a glória dele e falou a seu respeito”. Note que João disse que Isaías viu a glória de Jesus. Mas, quando, e em que ocasião? O verso 40 é uma citação direta do capítulo 6 de Isaías. E podemos ler o seguinte no início do capítulo 6:

“No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. As bases do limiar se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça. Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!” (1-5).

Isaías disse ter visto o SENHOR dos Exércitos. E se João disse que Isaías tinha visto Jesus, então o SENHOR e Jesus são a mesma pessoa. A conclusão é que todas as vezes que Deus foi visto no Antigo Testamento, era a Segunda Pessoa da Trindade se manifestando. Portanto, o Antigo Testamento tem bons indícios da existência da Trindade.

Provas do Novo Testamento

O Novo Testamento é muito mais decisivo em sua ênfase trinitária. Há muitos relatos que nos dão a justa idéia de que Deus é um e é três ao mesmo tempo.

No Batismo de Jesus

O texto do batismo de Jesus narra: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.16-17). Note que há três personagens presentes no relato. Jesus está sendo batizado, o Espírito está descendo sobre ele, e o Pai está falando dos céus. Inconfundivelmente, aí estão, simultaneamente as três pessoas da Trindade.

Na Fórmula Batismal

Jesus disse: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Nesse texto, não somente as três pessoas são citadas conjuntamente, como a expressão “em nome” está no singular. A Escritura não diz “batizando-os no nome do Pai, no nome do Filho e no nome do Espírito Santo”. Há apenas um nome para o Deus que subsiste em três pessoas.

Na Bênção Apostólica

O texto diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co 13.13). Por que Paulo colocaria esses três nomes em pé de igualdade, se não considerasse como pessoas da mesma divindade? Seria Paulo idólatra? Então, fica claro que a Bíblia afirma a existência da Trindade.

Em Apocalipse 1.4-5 a Bênção é pronunciada de forma ligeiramente diferenciada, mas as três pessoas estão presentes: “Graça e paz a vós outros, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono e da parte de Jesus Cristo, a Fiel Testemunha, o Primogênito dos mortos e o Soberano dos reis da terra”.

Na obra da Salvação

A Escritura mostra em passagens como 1Pedro 1.1-2 e Judas 20-22, Pai, Filho e Espírito Santo agindo em pé de igualdade na vida dos crentes na eleição, na redenção e durante todo o processo da santificação. A Trindade conjuntamente age em favor dos escolhidos.

Na Capacitação da igreja

Nas passagens de 1Coríntios 12.4-6 e Efésios 4.4-6 que tratam da maneira como Deus capacita sua igreja, para em unidade, desenvolver sua tarefa no mundo, as três pessoas da Trindade são mencionadas como sendo a base pela qual a igreja sobrevive e age no mundo. João 14.16 também faz menção da Trindade, mas nesse caso é o Espírito Santo que vem através do pedido do Filho ao Pai para substituir o próprio Filho no meio da igreja.

No Ensino de Cristo

Ao mesmo tempo em que Cristo disse que Deus era seu Pai que estava no céu (Mt 5.16; 7.21; 11.25-27), disse que não eram a mesma pessoa (Mt 16.27; Jo 10.17), e disse também que era “Um” com ele (Jo 10.30, 38). A comparação entre as palavras de Jesus nos leva a crer que existe mais de uma pessoa na Divindade. E esse certamente é o maior argumento bíblico a favor da divindade: a consciência do próprio Jesus. Ele sabia e demonstrou que era alguém diferente do Pai e ao mesmo tempo “um” com o Pai.

Em 1João 5.7. O texto mais claro na Bíblia com relação à Trindade é 1João 5.7. Entretanto, esse texto é amplamente controvertido, e muito provavelmente não seja realmente original, pois não aparece na maioria dos códices gregos antigos, nem nos latinos e não é citado pelos pais Anti-Nicenos. Mas, há grande evidência da antigüidade desse texto, quem sabe antes mesmo de 160 d.C7, demonstrando que a doutrina da Trindade já era tão antiga quanto essa data sugere.

Todos esses elementos bíblicos considerados conjuntamente deixam a certeza de que há um só Deus, que subsiste em três pessoas: O Pai, o Filho e o Espírito Santo.

5 Ver Gerard Van Groningen. Criação e Consumação, Vol I, p. 32.
6 Embora alguns vejam na repetição dos adjetivos “santo, santo, santo” em Isaías 6.3 um indício claro da Trindade, não desejamos ir tão longe, pois na língua hebraica a repetição visa enfatizar aquilo que está sendo dito. O mesmo talvez não possa ser dito de Daniel 9.19 e Isaías 33.22.

7 Ver Excelente estudo sobre o texto em Herman Bavinck. The Doctrine of God, p. 265-266. Para uma opinião contrária ver John Sttot. I, II, III João – Introdução e Comentário, p.155.
8 João Calvino. Institutas, I, 13, 21.

9 Berkhof fala da diferença entre “essência” e “substância” e da tendência moderna de não usar os dois termos como sinônimo pelo fato de que na igreja Oriental “substância” traduzia tanto “ousia” como “hipostasis”, sendo, portanto, um termo ambíguo (Ver L. Berkhof. Teologia Sistemática, p. 88-89).


Aspectos Teológicos da doutrina da Trindade

Falar sobre a base teológica da doutrina da Trindade significa estabelecer conceitos que nos ajudem a entender melhor a doutrina. É claro que jamais podemos nos esquecer que estamos lidando com algo que ultrapassa em muito o nosso entendimento. As palavras de Calvino sobre a Trindade são muito instrutivas nesse sentido, e servem de advertência contra especulações:

Entendamos que se nos secretos mistérios das Escrituras nos convém ser sóbrios e modestos, certamente este que tratamos no presente não requer menor modéstia e sobriedade; mas é preciso estar de sobreaviso, para que, nem nosso entendimento, nem nossa língua vá além do que a Palavra de Deus nos tem demonstrado. Por que, como poderá o entendimento humano compreender, com sua débil capacidade, a imensa essência de Deus, quando nem se quer consegue determinar com certeza qual é o corpo do sol, mesmo que todos os dias o vê com seus olhos? Assim mesmo, como poderá penetrar por si só a essência de Deus, uma vez que não conhece nem a sua própria? Portanto, deixemos a Deus o poder de conhecer-se.8

Definições

Podemos definir a doutrina da Trindade dizendo que há somente um Deus em essência, mas que este Deus subsiste em três pessoas distintas. Não há analogia ou ilustração que possa nos ajudar a entender como isso é possível. No passado, os Pais da igreja acostumaram-se a usar analogias para ajudar a entender a unidade dentro da Trindade. Falava-se, por exemplo, da união da luz, calor e esplendor em uma só substância do sol; da raiz, tronco e folhas de uma planta, ou mesmo do intelecto, vontade e sentimentos na alma humana. O fato é que todas as ilustrações conseguem acrescentar muito pouco, e às vezes, só mesmo distorcer a doutrina da Trindade.

Essência é a tradução da palavra grega “ousia” que também pode significar substância9, e refere-se à natureza divina. Essa natureza essencial é compartilhada pelas três pessoas da Trindade. Quando pensamos na raça humana, sabemos que todos compartilham a mesma natureza, a humana, mas, cada um é um indivíduo autônomo. Compartilhamos a mesma natureza, mas somos seres diferentes. Na Trindade há apenas uma natureza, pois há apenas um ser. Há três pessoas, mas apenas um ser. Cada uma das três pessoas da Trindade compartilha da mesma natureza divina, a qual é numericamente uma. São três pessoas distintas, mas não separadas. Há apenas uma vontade, um poder, uma mente, uma determinação, um sentimento, um ser. A essência de Deus não é dividida entre as três pessoas da Trindade, ela é absoluta, completa e perfeita em cada uma delas. Não são três partes de um só Deus, nem três deuses, é um Deus, uma substância e três pessoas.

Pessoa é tradução dos termos gregos “prosopon” e “hypostasis” ou o latino “persona” que foram usados pelos escritores antigos para indicar as distinções da Divindade. Modernamente tem se falado em subsistência como um termo mais adequado e livre de ambigüidades. Na verdade, muito tempo foi gasto na tentativa de encontrar uma palavra que melhor definisse o sentido da distinção, e isso por si só, já mostra o quanto todas são na verdade inadequadas. O importante é que o termo essência nos fala da unidade de Deus, enquanto que o termo pessoa ou subsistência nos fala das distinções que existem no ser divino. Pessoa é o elemento diferenciador na Trindade. Essência é uma, pessoas são três. Não são três modos de manifestações, mas três existências, ou subsistências reais dentro de um único ser. No Ser de Deus unidade e diversidade não são antônimas. Deus, em seu ser, pode ser tripessoal, sem deixar de ser um.

A Trindade em essência (ontológica)

Dentro da Trindade existe absoluta igualdade de essência, logo, não existe qualquer grau de subordinação, nem mesmo de honra. O Pai não é maior em essência do que o Filho e nem o Filho maior do que o Espírito Santo. O Pai não deve ser mais adorado do que o Espírito, ou o Espírito mais do que o Filho. Entretanto, há características próprias em cada uma das pessoas da Trindade, as quais não encontramos nas demais. Estamos falando da Paternidade, da Filiação e da Processão.

A paternidade é uma característica exclusiva do Pai. Nesse sentido não podemos chamar o Logos de Pai e nem o Espírito de Pai. A paternidade do Pai é diferente da que os homens concebem por ser eterna. Não houve um tempo em que Deus não fosse Pai. Desde toda a eternidade ele é o Pai do Filho. O Pai se difere do Filho e do Espírito Santo por não ser gerado e nem proceder de ninguém, e por ser o único que gera.

O Filho possui a característica exclusiva de ser gerado. Somente o Filho é filho do Pai. Não houve um tempo em que o Filho não existia (Mq 5.2), ele é eternamente gerado da essência do Pai. A igreja tem historicamente afirmado que a geração do Filho é desde toda a eternidade como um ato atemporal. Se o Pai gerou o Filho em algum momento da história, então, isso significa que ele mudou de essência e que o Filho não é eterno em essência. A geração do Filho não cria uma nova essência na Trindade, pois é a mesma essência que é compartilhada tanto pelo Pai quanto pelo Filho. A Geração é uma comunicação da essência do Pai ao Filho, num ato atemporal, que faz com que tanto o Pai, quanto o Filho tenham vida em si mesmos (Jo 5.26).

Berkhof dá a seguinte definição da geração do Filho: “É ato eterno e necessário da primeira pessoa da Trindade, pelo qual ele, dentro do Ser Divino, é a base de uma segunda subsistência pessoal, semelhante à Sua própria, e dá a esta segunda pessoa posse da essência divina completa, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança”10.

Em geral os argumentos mais usados para dizer que Cristo não é eterno são os textos de Colossenses 1.15 e Apocalipse 3.14 que falam respectivamente de Jesus como o “primogênito” e o “princípio” da criação de Deus. Dizem os unitários, especialmente as Testemunhas de Jeová, que esses termos colocam Cristo como a primeira criatura de Deus, não sendo, portanto eterna. Em Colossenses 1.15 “primogênito” da criação não pode se referir ao primeiro ser criado, pois subentenderia que Cristo é o primeiro filho da própria Criação, e isso não faz sentido. A interpretação mais provável é que Cristo é o herdeiro de toda a Criação de Deus. Do mesmo modo em Apocalipse 3.14 falar de Cristo como o primeiro por causa da palavra “princípio” não faz justiça ao uso dessa palavra no próprio livro do Apocalipse, pois o próprio Deus é chamado de princípio (Ap 1.8; 21.6; 22.13). Faz muito mais sentido pensar que o texto está falando de Cristo como o mais proeminente de toda a criação, o principal, o mais importante, o chefe (Ver Cl 1.18).

O Pai gera o Filho, o Filho é eternamente “gerado” do Pai, e o Espírito Santo “procede” eternamente do Pai e do Filho. Nas línguas grega e hebraica as palavras “pneuma” e “ruach”, que são traduzidas como “espírito”, derivam de raízes que significam “soprar, respirar, vento”. Daí a idéia do Espírito ser soprado por Deus (Jo 20.22). A doutrina de que o Espírito “procede” do Pai e do Filho levou algum tempo para ser formulada pela igreja, sendo que somente em 589 no Sínodo de Toledo foi formulada a seguinte declaração de fé: “Cremos no Espírito Santo, que procede do Pai e do Filho”11.

A base bíblica de que o Espírito procede do Pai e do Filho é João 15.26, e os textos onde o Espírito é chamado de Espírito de Cristo ou de Espírito do Filho (Rm 8.9; Gl 4.6; Fp 1.19; 1Pe 1.11). Berkhof define a “espiração” do Espírito como sendo “o eterno e necessário ato da primeira e da segunda pessoas da Trindade pelo qual elas, dentro do Ser Divino, vêm a ser a base da subsistência pessoal do Espírito Santo, e propiciam à terceira pessoa a posse da substância total da essência divina, sem nenhuma divisão, alienação ou mudança”12.

A Trindade no trabalho (econômica)

Uma maneira interessante de ver a Trindade é entender a forma como a Trindade age, não em relação a si mesma, mas em relação à criação. Quando falamos em essência, vimos que embora haja características próprias em cada pessoa da Trindade, não existe qualquer grau de subordinação entre elas. Porém, quando falamos em trabalho (economia) da Trindade, percebemos que há uma ordem como Deus trabalha. Isso nos revela bastante do caráter Trinitário.

Jesus fez algumas declarações que certamente poderiam nos deixar confusos se não entendêssemos a diferença de Trindade em essência (ontológica) e Trindade econômica. Já vimos que ele disse ser um com seu Pai, porém, em outros textos ele afirmou ser submisso ao Pai, como por exemplo, João 6.38: “Porque desci do céu não para fazer a minha própria vontade; e, sim, a vontade daquele que me enviou”. E também noutra ocasião ele disse: “O Pai é maior do que eu” (Jo 14.28).

Já dissemos que de acordo com a Bíblia há igualdade absoluta entre as pessoas da Trindade, mas então, por que Jesus disse que o Pai era maior do que ele? Certamente porque se referia a sua encarnação e a obra que precisava fazer. Ele foi submisso ao Pai nesse sentido, e portanto, inferior em função, mas não em essência. Estamos agora falando das obras que se realizam, não dentro do ser divino, mas em relação à criação, providência e redenção. Vemos nas Escrituras algumas obras sendo mais atribuídas a uma das pessoas da Trindade do que a outra. Entretanto, devemos tomar o cuidado para não exagerarmos nas distinções, pois de certa forma, a Trindade participa conjuntamente de todas as obras externas.

Não precisamos temer falar de uma subordinação econômica do Filho ao Pai, desde que entendamos que não há qualquer subordinação de essência. É por isso que Paulo diz: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1Co 11.3). No contexto ele está tratando da diferença que existe entre o homem e a mulher, e da subordinação que a mulher deve ao homem. Ele não está dizendo que a mulher é inferior ao homem, mas que deve ser submissa e guardar as diferenças proporcionais13. Da mesma forma o Pai é o cabeça de Cristo, mas isso não quer dizer que ele é superior, pois a essência é a mesma. A questão está nas funções que são diferentes.

Devemos evitar a formulação simplista de que o Pai é o responsável pela Criação, o Filho pela Redenção, e o Espírito pela santificação, pois a Trindade participa conjuntamente de tudo isso. A distinção que podemos fazer é a seguinte: Ao Pai pertence mais o ato de planejar, ao Filho o de mediar, e ao Espírito o de agir. Isso pode ser visto no relato da criação.

No texto de Gênesis 1.1-3 as três pessoas da Trindade estão agindo. O texto diz: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Note que a criação é atribuída a Deus. Entretanto, em seguida veja algumas manifestações diferentes desse Deus: “A terra, porém, era sem forma e vazia, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1.2). Aí está a Terceira Pessoa, o “Espírito de Deus”. A maioria dos comentaristas concorda que o Espírito Santo está numa função de “energizar” a matéria, sendo, portanto, o ponto de contato entre Deus e a matéria. Mas, e onde está o Filho? O Filho é a “palavra” de Deus. Foi João quem chamou Jesus de o “verbo” de Deus (Jo 1.1). Ele é a Palavra proferida, o “haja luz”, é o instrumento através do qual todas as coisas foram criadas. A Bíblia afirma isso categoricamente: “Pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16).

Portanto, podemos dizer que na obra da criação, o Pai fala, o Filho é a Palavra falada – Mediador, e o Espírito Santo é o agente direto sobre a matéria. Em termos semelhantes, a Trindade trabalha na Redenção, cada pessoa executando uma tarefa particular. O Texto de 1Pedro 1.2 é claro nesse sentido, pois diz que os crentes são: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo”. Aqui também o Pai é o idealizador da salvação, pois a ele pertence o ato de escolher os que devem ser salvos. Nesse sentido, o Pai é o autor da eleição. O Filho está novamente na função de Mediador, ele possibilita a obediência a Deus através da aspersão de seu sangue. Já ao Espírito Santo é indicada a tarefa de santificar, ou seja, separar para si os eleitos. Então, o Pai elegeu, o filho salvou e o Espírito aplicou a salvação.

Na verdade essa ordem de funções pode ser vista por toda a Escritura: O Pai planejando a salvação (Jo 6.37-38) e escolhendo os eleitos (Ef 1.3-4), o Filho executando o plano de Deus (Jo 17.4; Ef 1.7), e o Espírito Santo confirmando essa obra sobre os crentes (Ef 1.13-14). De fato, como declara Lloyd-Jones, “essa é uma ideia atordoante, ou seja, que estas três bem-aventuradas Pessoas, na bem-aventurada santíssima Trindade, para minha salvação, quiseram dividir assim o trabalho”.14

8 João Calvino. Institutas, I, 13, 21.
9 Berkhof fala da diferença entre “essência” e “substância” e da tendência moderna de não usar os dois termos como sinônimo pelo fato de que na igreja Oriental “substância” traduzia tanto “ousia” como “hipostasis”, sendo, portanto, um termo ambíguo (Ver L. Berkhof. Teologia Sistemática, p. 88-89).
10 Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 95.
11 A igreja Oriental (Católica Ortodoxa) nunca aceitou essa formulação.
12 Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 98.
13 Ver Augustus N. Lopes. O Culto Espiritual, p. 64-65.
14 D. M. Lhoyd-Jones. Deus o Pai, Deus o Filho, p. 122-123.


Aspectos práticos da doutrina da Trindade

Até aqui vimos aspectos históricos, bíblicos e teológicos da doutrina da Trindade. Agora queremos falar sobre aspectos práticos. Claro que isso não significa que o que foi dito acima não é prático. Mas até aqui nos preocupamos em definir bem os conceitos, agora queremos tratar sobre como a doutrina da Trindade deve influenciar a nossa vida diária.

É impossível ter um relacionamento correto com Deus sem considerar a Trindade. Hoje as pessoas demonstram inconscientemente preferência por uma das pessoas da Trindade. Há aqueles para quem a pessoa do Pai é a central. Essas pessoas pensam muito pouco em Jesus e no Espírito Santo. Principalmente os oriundos da tradição católica, quando lembram de Deus, pensam na pessoa do Pai. Outros preferem a pessoa do Filho, geralmente os influenciados pelo “pietismo”, mas certamente são minoria. O Espírito Santo é o foco principal da vida da maioria dos crentes das igrejas carismáticas. Essa fragmentação das pessoas da Trindade é coisa bem típica do nosso mundo moderno. Ela dilui a compreensão da riqueza de Deus.

Por outro lado, na prática o que se percebe é uma espécie de unitarismo funcional. Quando pensamos em Deus, não trazemos à memória a existência triúna, mas o imaginamos como uma pessoa única. Isso compromete demasiadamente o relacionamento com ele, pois impede que entendamos mais completamente o seu caráter. Na verdade é impossível compreender a Criação e a Redenção sem pensar na Trindade. Pois, como vimos, tanto a Criação quando a Redenção não são obra de uma das pessoas divinas, mas da Trindade como um todo.

Nesse ponto outras coisas precisam ser consideradas. Um problema é imaginar que Deus precisou criar o mundo para se sentir mais pleno. Isso é um engano, pois Deus é absolutamente completo em si mesmo. Ele não precisava criar o universo para se sentir melhor, nem mesmo para experimentar algum relacionamento, pois em seu ser, Deus já é completo e relacionável.

Na oração sacerdotal Jesus disse: “E agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo... porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.5,24). Na verdade, esse por si só, já é um grande argumento em favor da Trindade. Se a Bíblia diz que Deus é amor (1Jo 4.8), então, o que ele amava antes de ter criado alguma coisa? Deus exercitava o amor consigo mesmo, no relacionamento trinitário, que por sua vez, veio a ser a base para o relacionamento amoroso com os homens, que assim, também pode ser chamado de “amor eterno” (Jr 31.3). Deus expandiu seu amor intra-trinitário para suas criaturas, e isso demonstra de forma assombrosa como é grande esse seu amor.

Quando Deus nos chama para a fé, na verdade é um convite para mergulhar no relacionamento trinitário, aquele relacionamento que as pessoas da Trindade têm entre si. Jesus disse: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (Jo 14.23).

Deus não precisava criar nada para se sentir mais pleno, mas ainda assim decidiu criar para dar maior expressão ao relacionamento trinitário. Somos chamados para participar disso, como Jesus deixou bem claro em sua oração: “A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós” (Jo 17.21). A idéia somada desses textos é: O Deus triúno em nós, e nós no Deus triúno, uma comunhão com base trinitária. Somos chamados para mergulhar no amor da Trindade. Por essa razão, não considerar a Trindade é entender menos o amor de Deus.

Isso por sua vez nos leva a entender nosso chamado relacional. Jesus continuou orando Pai: “Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós o somos; eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (Jo 17.22-23).

É fácil de entender porque a comunhão é tão difícil na igreja. As pessoas buscam comunhão através de eventos sociais, trabalhos comunitários, músicas que incentivam cumprimentos mútuos, etc. Mas a verdadeira base da comunhão da igreja é a Trindade. Precisamos entender que fomos chamados para refletir o mesmo amor que existe na Trindade. Somos chamados para mergulhar nesse amor, e de tal forma ele precisa inundar a nossa vida, que os outros irmãos receberão os efeitos dele.

O próprio sentido de nossa missão no mundo também está explícito nessas palavras de Jesus. Queremos que o mundo conheça o Evangelho, para isso fazemos imensas campanhas evangelísticas, cultos de evangelização, distribuímos folhetos, mas percebemos que os resultados são insignificantes. Jesus ensinou que nosso testemunho depende de nossa unidade. Enquanto o amor da Trindade não invadir nosso coração a ponto de alcançar os outros, o mundo continuará descrente em relação a Jesus.

A consciência da Trindade muda também o próprio culto que prestamos a Deus. O culto cristão é essencialmente trinitário. Uma definição de culto cristão poderia ser: “Adorar o Pai, pela mediação do Filho, no poder do Espírito Santo”15. Essa é uma definição interessante, mas há o perigo de compartimentar as coisas, pois não é só o Pai que é adorado, e sim o Deus triúno. A idéia é que o culto como um todo é para a Trindade e obra da Trindade. O acesso à presença de Deus se faz pela pessoa do Filho. A comunicação de Deus com o povo se dá pelo Espírito que faz uso da Palavra. O culto é uma vibrante atuação do Deus triúno.

Quando temos isso bem claro em nossa mente, percebemos que a única coisa que precisamos para adorar a Deus verdadeiramente é a atuação da Trindade. Isso evidentemente não dispensa os elementos do culto como a música, os instrumentos, e as próprias pessoas. Mas a adoração verdadeira não pode depender de um cântico animado, de instrumentos bem tocados, ou da eloquência do pregador. Se essas coisas são os instrumentos da adoração é provável que não esteja acontecendo adoração. A adoração verdadeira é obra da Trindade em nós, e a partir de nós, para a própria Trindade. Por isso o culto bíblico é bastante diferente do que se vê na maioria das igrejas. O culto bíblico é teocêntrico e não antropocêntrico.

Finalmente, a doutrina da Trindade é um chamado ao serviço. Estudamos sobre a absoluta igualdade essencial da Trindade. Nesse sentido não há qualquer grau de subordinação entre as pessoas da Trindade. Mas percebemos que nas obras externas, ao trabalhar na Criação e na Redenção, as pessoas da Trindade se subordinam umas às outras e trabalham em perfeita cooperação. Embora sejam pessoas plenas, e cada uma tenha a essência completa da Trindade em si, não são, nem desejam ser autônomas. São absolutamente livres e isso faz com que se relacionem e promovam a obediência. O Filho faz questão de obedecer ao Pai, e o Espírito é obediente ao Filho.

A dificuldade que os cristãos têm de trabalhar juntos é por causa do ego. Cada um tem seu orgulho pessoal, e deseja que sua opinião prevaleça. Achamos que obedecer e servir uns aos outros nos torna inferiores. Achamos que a liberdade é a autonomia. A Trindade nos ensina que através do serviço e da obediência cristã é que desfrutamos da plena liberdade. Quando o Filho de Deus amarrou a tolha na cintura e lavou aos pés dos discípulos, isso não o fez menos digno nem menos livre, ao contrário.

Diante dessas coisas, concluímos que devemos valorizar mais essa doutrina. Precisamos nos arrepender por considerar tão pouco esse precioso ensino da Escritura, e passar a considerar o caráter trinitário de nosso Deus em nosso relacionamento com ele, com os irmãos e no culto que lhe dirigimos. Acima de tudo permanece que não podemos conhecer verdadeiramente a Deus, se não considerarmos seu caráter trinitário. Como diz Bavinck, “somente quando nós contemplamos essa Trindade é que nós descobrimos quem e o que Deus é”16.

15 Ricardo Barbosa de Sousa. O Caminho do Coração, p. 80.
16 Herman Bavinck. Teologia Sistemática, p. 155.

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